segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Folha de Papel - parte 02

"Pare de matar essas formigas.. Elas não te fizeram nada!"
"Não..."
"Por que?"
"Porque eu posso... O mundo é dos mais fortes, e eu tenho força para fazer isso. É a lei da natureza"

...

"Será que, quando tivermos lá nossos 23 anos, vamos nos lembrar do rosto um do outro?"

....

Eu acho que ouvi uma rachadura vindo da direção daquela estátua. Um ídolo de pedra, marcado no coração do Caio, chamado Luiz Gabriel, já não parecia mais tão majestoso quanto antes.

Eu sempre, sempre, sempre e sempre me sacrifiquei para ver as pessoas ao meu redor felizes.
E nunca recebi nada em troca.

Eu sou uma pessoa orgulhosa. Isso eu fui sempre, desde que nasci. Mas sempre achei que tudo o que existe tem o direito de existir, até que prove o contrário. E sempre achei a natureza a coisa mais injusta que existe.
Porque sentimos fome? Simplesmente para tomar uma vida que existe neste mundo para que possamos sobreviver.

Eu não suporto ver inocentes sofrendo, e com isso, adquiri uma virtude da qual me orgulho muito: ser justo.

No início de 2.004, a Martha se tornou reclusa. Algo estava acontecendo, mas ela não me falava. E foi quando descobri que o trio estava abalado, e nunca compreendi onde isso começou. Se antes sempre saíamos juntos, a Martha e o Luiz Gabriel passaram a me deixar de lado, e saíam sozinhos. E a lembrança da Isabel e do Vinícius partiu meu corpo em dois como uma lâmina gigante. Pronto! Quando eu finalmente parecia ter me recuperado, quatro anos depois tudo começaria novamente.

"Acho que você devia falar com a Martha".
"Sobre?"
"Sobre o que está acontecendo..."
"O que está acontecendo?"

.....

"Falou com a Martha?"
"Não... Acho que, se ela quisesse falar comigo, ela já o teria feito... Se ela não falou, é porque não acha necessário..."
"Imaginei que você fosse falar isso"

.....

Momentos. Dúvidas. Raiva. Preocupação. Lembranças.
Já havia passado meio ano naquela situação e eu sentia meu espírito deteriorar. A dor excruciante que eu senti, em toda sua plenitude, de uma única vez, ao descobrir a traição
da Isabel/Vinicius, eu sentia se acumular aos poucos ao lado daqueles dois. Minhas forças se esvaíam.

Foi então que, uma noite em que ela foi dormir em casa, que a Martha me contou o que estava acontecendo. E eu a abracei... De forma terna, inocente, eu expressei carinho por alguém como há muito não fazia. E ficamos abraçados ali, por alguns minutos, antes de dormir...

"Eu fiquei sabendo o que aconteceu entre você e a Martha"
"O que aconteceu? O abraço que eu dei nela?"
"É.... E eu achei estranho... Não sei... Senti como se você estivesse tentando roubar o meu lugar... Afinal, você sempre foi a pessoa distante e fria, enquanto eu oferecia calor....."

E a estátua foi ao chão... Para nunca mais ser levantada novamente....

Quanto à Martha, ela passou a buscar um relacionamento comigo que eu não podia oferecer. Não que eu não a amasse... Muito pelo contrário... Acho, até hoje, que ela foi a pessoa perfeita para estar ao meu lado, e não fosse pela minha fragilidade e orgulho, estaríamos felizes juntos, hoje.

Tivemos nossos momentos juntos como namorados. Afinal, eu estava tão desorientado com a minha decepção com o Luiz Gabriel, e tão irremediavelmente ferido com a intensidade com a qual a Martha o amava, que aceitei o pedido dela às escuras, sem saber que o que eu realmente sentia por ela era amor, e não amizade. Eu havia perdido a minha capacidade de raciocínio, e isso era um sinal claro que já não tinha forças para mais nada.... Novamente....

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